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Atletas olímpicos compartilham suas histórias de depressão

Ao falarem dos momentos difíceis, Phelps, Joanna e Rafaela derrubam mitos sobre a doença

Michael Phelps ganhou mais medalhas de ouro em Olimpíadas do que o Brasil. Não na Rio 2016; na história. O nadador havia anunciado a aposentadoria há quatro anos, em Londres, mas decidiu voltar. O que aconteceu neste período é que me surpreendeu ontem, ao assistir reportagem da ESPN.

Todo mundo viu o americano fumando maconha - u-hu, legalize, gritaram os entusiasmados. Ele ia para a balada, curtia ao lado de muitas mulheres, tirava fotos com o maior sorrisão. Até ser detido por dirigir embriagado. Phelps contou em entrevista como se sentia um lixo, trancando-se num quarto de hotel sem comer ou dormir. Considerou o suicídio.

Calma aí: estamos falando da mesma pessoa? Um cara rico e inegavelmente bem sucedido pensou que “o mundo ficaria melhor sem ele”?

Pois é o que ele compartilha neste vídeo. (clique aqui.)

A história de Phelps se toca com a de duas mulheres brasileiras, Joanna Maranhão, também nadadora, e Rafaela Silva, judoca que acaba de ganhar o ouro olímpico. Além de serem atletas, não poderiam ser mais diferentes, à exceção do básico do básico, muitas vezes esquecido: são humanas.

Joanna tem uma história pesadíssima de violência sexual ainda na infância. Agora, ao não se classificar para as finais, leu grandes absurdos nas redes sociais, inclusive que ela teria inventado tudo, uma desconfiança sempre carregada pelas vítimas. Rafaela Silva viveu ataque parecido após a eliminação em Londres. Agora no topo do pódio, aparece como exemplo de superação, mas uma parte da trajetória da mulher nascida e criada na Cidade de Deus passa como se tivera sido algo fugaz. Ela também viveu um episódio depressivo e pensou em largar a carreira em razão da derrota em 2012 e dos xingamentos racistas que inundaram o Twitter.

Rafaela ficou prostrada no sofá de casa, Phelps se trancou em um hotel em outro hemisfério, Joanna dormia muitas horas e chorava ao olhar para a piscina do clube onde treinava.

Ao exporem ao mundo os relatos de depressão, os três atletas ajudam a desmistificar a doença. Não é coisa de gente preguiçosa, de quem não tem o que fazer, muito menos mera frescura. Episódios depressivos de fato acabam com o sentido da própria existência, e não há nada pior que uma mente traiçoeira.

Melhor ainda: Phelps, Rafa e Joanna retornaram. Saíram do sofá, do quarto do hotel, da cama. Estiveram na Rio 2016, mostrando que é possível, sim, se recuperar. Mas eles não conseguiram sozinhos; todos mencionam como eram cercados de pessoas amorosas. Importantíssimo esse ponto, pois familiares e amigos grande parte das vezes não conseguem compreender os caminhos nebulosos da mente e se afastam. Ver-se sozinho dói demais para quem já se sente sozinho, um verdadeiro estorvo. Daí deixar tudo para trás parece a única saída possível.

Mesmo agradecendo quem os continuou apoiando, eles não deixaram de falar e reiterar a importância da terapia, do tratamento com um profissional. Justamente por a depressão não ser considerada pelo homem médio como uma doença, tem-se a ideia equivocadíssima de que “basta querer” sair “daquela situação”.

Depressão não é tristeza porque a vida está difícil. Todos vamos passar por inúmeros episódios em que o mundo parece desabar: a perda de alguém que amamos, um pé na bunda, a conta no vermelho. E vale se preocupar, chorar, procurar uma ou outra válvula de escape que não torne as coisas ainda piores. Num colapso depressivo, a sensação é de nada. Somos nada, o mundo é nada. Nada.

Sem dúvida mais mulheres vão entrar num tatame e serão campeãs como Rafaela pelo exemplo magnífico dado nestas olimpíada. Joanna abriu os olhos da sociedade para uma verdade inconveniente, a violência sexual. Katie Ledecky, duas vezes ouro no Rio, encontrou o ídolo Michel Phelps há dez anos. Hoje segue suas braçadas.

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Na piscina ou no tatame, eles mostraram como é que se faz. Ao compartilharem seus relatos de depressão, mostraram também que a doença atinge qualquer um, de qualquer classe social; que amigos e família são essencias; que o tratamento especializado é indispensável.

Ninguém sai dessa sozinho. E qualquer um pode sair.