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A violência contra a mulher é um problema dos homens

O título do post já espanta muitos homens.

Eu?

Euuuuuuuuuu? 

Lá vem a feminista dizer que sou um agressor em potencial!

Bom, se formos falar de estatísticas, sinto muito (mesmo), mas as mulheres têm razão em olhar para você assim (explico no fim do texto). O objetivo deste post, todavia, é outro. Como muitas já falam reiteradamente, o discurso deve mudar. Nós não temos violência contra a mulher. Não assim, desse jeito, digamos, simples.

O que nós temos é violência dos homens contra as mulheres.

Do jeito que a gente fala (violência contra a mulher), parece que as agressões são cometidas por ninguém. Crimes com vítimas, mas sem responsáveis. Pós modernos usam o termo violência de gênero – aqui, perde-se até a categoria sexual de quem é agredida. Perde-se a narrativa da vítima, também. Ao meu ver, um atraso, pois foi com muita luta, lágrimas e literalmente sangue que mulheres conseguimos colocar luzes sobre nossas cicatrizes.

Ao falarmos em gênero e não em mulheres, descola-se o sentido do termo – e muita gente não consegue nem se identificar.

Então, reitero: violência contra a mulher. Feminicídio. Lei Maria da Penha. Quinto país que mais mata mulheres. Mulheres.

Notaram o problema da minha penúltima frase? Quinto país que mais mata mulheres. O país matou ou foram homens brasileiros que mataram?Nós sabemos a resposta e continuamos falando na violência como ato sem atores.

Existem muitas consequências de não colocarmos o agente da violência em evidência. Uma delas é que todos os homens acham que não têm nada com isso. Nunca deram bebida para soltar uma moça, nunca espancaram parceiras, nunca tiraram a camisinha sem avisar. Até lavam a louça! São bons rapazes, ainda que nossos parâmetros pro que é “um cara maneiro” sejam muito baixos (basicamente achamos incríveis os caras que não cometem crimes e compartilham textos feministas no facebook).

Se o cara acha que não tem nada com isso e simplesmente se fecha ao se começar a falar de violência de gênero (sic), então há algo muito errado com nosso discurso. Pensei nisso ontem ao participar de uma discussão absolutamente inócua no facebook. Nomeei alguns dos temas que me são caros – aborto, estupro, feminização da pobreza, entre outros.

Por quê esses assuntos estão na pauta do movimento feminista, mas os movimentos capitaneados por homens colocam isso na conta das mulheres – e nós é que resolvamos? Porque eles acham que é “assunto de mulher”, por mais que nós não engravidemos sozinhas. Aborto deveria ser uma pauta masculina sim, claro! Protagonismo das mulheres não é desculpa para os caras simplesmente lavarem as mãos e irem curtir uma cervejinha gelada.

Quando se fala em violência contra a mulher, o panorama fica ainda pior. Eles não só deveriam lutar para a erradicação da mesma. Eles são os responsáveis pela EXISTÊNCIA dela! Violência contra a mulher não é uma mulher batendo na outra; são 530 mil estupros por ano só no Brasil, um por minuto!

Homens não são apenas os agressores com punho fechado em direção ao rosto de uma mulher. São os que veem a agressão acontecendo e não fazem nada. São os donos de capital, de empresas de mídia que reverberam a ideia de que mulheres são objetos. São os legisladores que não querem nem ouvir falar de aborto, não importa quantas mulheres morram pela clandestinidade. São os consumidores de pornografia.

Eu não quero tirar o foco da vítima, nunca, jamais, em tempo algum. Mas precisamos de mais relatos de violência para que os homens comecem a se engajar? Não é suficiente o que já falamos? Repliquei muito a ideia de que eles não se engajarão nunca, pois o sistema de constante terror e de livre acesso ao corpo das mulheres é muito interessante para os homens e, assim, eles não teriam o menor interesse em mudar a situação. Espero ter errado por vários anos.

Espero, sinceramente.

Mas nesta noite de domingo, reitero, com pesar: o que temos hoje é a violência dos homens contra as mulheres, de forma sistemática, institucionalmente aceita e midiaticamente celebrada.

***

Explicando aquela parte lá de cima: são cerca de 50 mil estupros registrados ao ano no Brasil. Estudos internacionais apontam que apenas 10% dos crimes sexuais são relatados à polícia. Sendo assim, o número subiria para 523.000 ao ano, ou um por minuto. 99% cometidos por homens. 170 por dia só no estado do Rio de Janeiro. Como uma mulher vai saber se você é um agressor ou não? Infelizmente temos de tomar nossas precauções. Acredite, nós não gostamos nada de viver desse jeito.

 


O despreparo – e a falta de humanidade – de quem lida com a morte

(este é um post importante, mas triste.)

Nada daquilo era novidade. O barulho incessante das máquinas nos leitos de UTI, a escolha da última roupa, o choro literalmente inconsolável nos rostos de quem eu amo, a ideia aterrorizante do “nunca mais”. Tudo doloroso, tudo desesperador, tudo exaustivo. Quando se perde a luta contra a morte, a avalanche de emoções torna-se inevitável. Fez-se o possível? Havia algo mais? Como lidamos, agora, com a ausência? Quais histórias ficaram mal resolvidas?

Além das questões subjetivas, aquelas tocando nosso âmago, existem as questões práticas, objetivas e ridiculamente burocráticas para serem resolvidas. Quem consegue, quando o estômago embrulha, as lágrimas se transformam em soluço e as emoções – de amor, de ódio, de revolta – embaçam a vista?

Não tem jeito: alguém tem de conseguir. Mas tudo seria menos doído se os profissionais tratassem de situação tão desnorteante de forma humana. Não é a regra.

Vivi isto no último sábado, ao adentrar a UTI com as luzes todas acesas, os apitos dos outros leitos lembrando que ali outros continuam a batalha, a maca no meio do salão coberta por um lençol tão fino sequer capaz de esconder o saco cinzento que guardava o corpo de quem se foi. Um saco. Embaixo do lençol – fininho, fininho, quase transparente -, uma folha tamanho A4 com o nome de quem fez parte da minha existência durante quarenta anos.

Havia um outro saco por cima de tudo, onde talvez estivessem fraldas, desodorante, algo mais que preferi não saber. Me entregaram (não tenho ideia de quem) e rapidamente um rapaz começou a empurrar a maca para fora da UTI. Passamos pelos corredores do hospital, observamos os olhares curiosos em nossa direção, e de repente me vi no elevador. Eu, o rapaz, a maca, o corpo ainda não rígido balançando a cada solavanco, a sacola misteriosa nas minhas mãos.

Em um necrotério vazio, me vi sozinha com a pessoa no saco cinzento. Tentei escondê-lo com cuidado. Lembrei das palavras ouvidas minutos antes: “ainda bem que foi você quem subiu, o outro rapaz estava transtornado”. Se ele estava assim, se estávamos num hospital, se ele perdeu uma das pessoas mais amadas, não deveria ter sido assistido de forma humanizada? Não haveria uma pessoa, uma única pessoa, capaz de confortar alguém em luto?

O jeito foi eu mesma tentar fazer isso. Eu, sem especialização nenhuma. Eu, em tentativa-e-erro. Eu, também tomada por emoções. Eu, quem ligou para a funerária que, apesar de saber que aquele número (soube 14 anos antes que mortos não têm nome; são números) era pesado, mandou apenas um funcionário para o transportar.

Passei por experiência que jamais esperaria, nem nos piores pesadelos ou qualquer fanfic de esquerda ou direita: tive que carregar o número, junto com outra pessoa cujo coração doía, uma dor tamanha que reverberava no meu próprio peito. A sucessão de terrores se prolongou por horas. Onde está a roupa? Quanto custa esse caixão? Você divide em quantas vezes? Pode ser no cartão?

É a floricultura que dobra o preço de um buquê por reconhecer a fragilidade de quem está numa corda bamba. O telefonema cobrando a primeira parcela do acordo do funeral, quando você finalmente pega no sono depois de horas de vigília, “porque é preciso fechar o caixa”.

As pessoas que literalmente fazem a vida lidando com a morte têm alguma ideia do que estão fazendo? Elas faturam em cima disso, mas não têm a menor delicadeza em tratar com quem ficou, quanto mais respeitar quem já partiu. Lembro da manhã do dia 13 de novembro de 2003, quando eu, por uma janelinha no IML, pedia pelamordadeusa para liberarem o corpo que levou para sempre um pedaço de mim. “A digital está muito fraca na carteirinha do CRM. Ela não tem outra identidade?”

“Me desculpe, senhora, mas ela não achava que iria morrer na viagem de férias, então ela não trouxe RG CPF Comprovante de Residência Carteirinha de Vacinação Certidão de Nascimento Extrato do Banco Documento do Carro para provar que ela é ela”, quis responder, mas me restringi a dizer “eu sou a irmã dela”. Ali eu descobri que ela havia virado um número.

Anos depois, outra cidade, outras circunstâncias, outras pessoas, e o despreparo continua igual. Com honestidade, não acredito que essas pessoas tenham sequer a intenção de melhorar o atendimento dado aos familiares e amigos de quem falece. Não precisa abraçar, chorar junto, dizer “ela/ele está num lugar melhor” (por favor jamais digam isso), mas falar baixo, recomendar um serviço humanizado, ter um especialista por perto para dar a notícia, tudo isso tornaria uma experiência dolorosíssima em algo ao menos suportável, talvez.

As coisas não acabam no último suspiro, na última batida do coração. A dor está apenas começando. Que tal se os profissionais ligados à área nos tratassem de forma diferente?

***

Neste post falo do IML do Rio de Janeiro, que demorou 17 horas para liberar o corpo da minha irmã, prolongando um sofrimento que doerá apra sempre.

Falo também do Hospital da Unimed – Unidade Nilton Lins, em Manaus, onde não houve o acompanhamento de quaisquer profissionais no amparo aos familiares, além de não disponibilizar um único funcionário para ajudar a colocar o corpo no caixão. Para completar, uma funcionária me impediu de passar por dentro do hospital para acessar o necrotério, me obrigando a dar a volta por fora do hospital na noite do último sábado, uma área deserta, de terra batida, ao lado de um matagal.

Por último, não recomendo os serviços da funerária Canaã, também em Manaus, que sequer tem funcionários uniformizados ou vestidos adequadamente, além de terem cometido um erro imperdoável que prefiro não mencionar.

Desconheço o nome da floricultura, mas certamente não é a única a querer lucrar absurdamente na fragilidade de quem está de luto.

 


Um ziguilhão de beijos

Amigas e amigos,

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Beijos,

Nádia