O despreparo – e a falta de humanidade – de quem lida com a morte

(este é um post importante, mas triste.)

Nada daquilo era novidade. O barulho incessante das máquinas nos leitos de UTI, a escolha da última roupa, o choro literalmente inconsolável nos rostos de quem eu amo, a ideia aterrorizante do “nunca mais”. Tudo doloroso, tudo desesperador, tudo exaustivo. Quando se perde a luta contra a morte, a avalanche de emoções torna-se inevitável. Fez-se o possível? Havia algo mais? Como lidamos, agora, com a ausência? Quais histórias ficaram mal resolvidas?

Além das questões subjetivas, aquelas tocando nosso âmago, existem as questões práticas, objetivas e ridiculamente burocráticas para serem resolvidas. Quem consegue, quando o estômago embrulha, as lágrimas se transformam em soluço e as emoções – de amor, de ódio, de revolta – embaçam a vista?

Não tem jeito: alguém tem de conseguir. Mas tudo seria menos doído se os profissionais tratassem de situação tão desnorteante de forma humana. Não é a regra.

Vivi isto no último sábado, ao adentrar a UTI com as luzes todas acesas, os apitos dos outros leitos lembrando que ali outros continuam a batalha, a maca no meio do salão coberta por um lençol tão fino sequer capaz de esconder o saco cinzento que guardava o corpo de quem se foi. Um saco. Embaixo do lençol – fininho, fininho, quase transparente -, uma folha tamanho A4 com o nome de quem fez parte da minha existência durante quarenta anos.

Havia um outro saco por cima de tudo, onde talvez estivessem fraldas, desodorante, algo mais que preferi não saber. Me entregaram (não tenho ideia de quem) e rapidamente um rapaz começou a empurrar a maca para fora da UTI. Passamos pelos corredores do hospital, observamos os olhares curiosos em nossa direção, e de repente me vi no elevador. Eu, o rapaz, a maca, o corpo ainda não rígido balançando a cada solavanco, a sacola misteriosa nas minhas mãos.

Em um necrotério vazio, me vi sozinha com a pessoa no saco cinzento. Tentei escondê-lo com cuidado. Lembrei das palavras ouvidas minutos antes: “ainda bem que foi você quem subiu, o outro rapaz estava transtornado”. Se ele estava assim, se estávamos num hospital, se ele perdeu uma das pessoas mais amadas, não deveria ter sido assistido de forma humanizada? Não haveria uma pessoa, uma única pessoa, capaz de confortar alguém em luto?

O jeito foi eu mesma tentar fazer isso. Eu, sem especialização nenhuma. Eu, em tentativa-e-erro. Eu, também tomada por emoções. Eu, quem ligou para a funerária que, apesar de saber que aquele número (soube 14 anos antes que mortos não têm nome; são números) era pesado, mandou apenas um funcionário para o transportar.

Passei por experiência que jamais esperaria, nem nos piores pesadelos ou qualquer fanfic de esquerda ou direita: tive que carregar o número, junto com outra pessoa cujo coração doía, uma dor tamanha que reverberava no meu próprio peito. A sucessão de terrores se prolongou por horas. Onde está a roupa? Quanto custa esse caixão? Você divide em quantas vezes? Pode ser no cartão?

É a floricultura que dobra o preço de um buquê por reconhecer a fragilidade de quem está numa corda bamba. O telefonema cobrando a primeira parcela do acordo do funeral, quando você finalmente pega no sono depois de horas de vigília, “porque é preciso fechar o caixa”.

As pessoas que literalmente fazem a vida lidando com a morte têm alguma ideia do que estão fazendo? Elas faturam em cima disso, mas não têm a menor delicadeza em tratar com quem ficou, quanto mais respeitar quem já partiu. Lembro da manhã do dia 13 de novembro de 2003, quando eu, por uma janelinha no IML, pedia pelamordadeusa para liberarem o corpo que levou para sempre um pedaço de mim. “A digital está muito fraca na carteirinha do CRM. Ela não tem outra identidade?”

“Me desculpe, senhora, mas ela não achava que iria morrer na viagem de férias, então ela não trouxe RG CPF Comprovante de Residência Carteirinha de Vacinação Certidão de Nascimento Extrato do Banco Documento do Carro para provar que ela é ela”, quis responder, mas me restringi a dizer “eu sou a irmã dela”. Ali eu descobri que ela havia virado um número.

Anos depois, outra cidade, outras circunstâncias, outras pessoas, e o despreparo continua igual. Com honestidade, não acredito que essas pessoas tenham sequer a intenção de melhorar o atendimento dado aos familiares e amigos de quem falece. Não precisa abraçar, chorar junto, dizer “ela/ele está num lugar melhor” (por favor jamais digam isso), mas falar baixo, recomendar um serviço humanizado, ter um especialista por perto para dar a notícia, tudo isso tornaria uma experiência dolorosíssima em algo ao menos suportável, talvez.

As coisas não acabam no último suspiro, na última batida do coração. A dor está apenas começando. Que tal se os profissionais ligados à área nos tratassem de forma diferente?

***

Neste post falo do IML do Rio de Janeiro, que demorou 17 horas para liberar o corpo da minha irmã, prolongando um sofrimento que doerá apra sempre.

Falo também do Hospital da Unimed – Unidade Nilton Lins, em Manaus, onde não houve o acompanhamento de quaisquer profissionais no amparo aos familiares, além de não disponibilizar um único funcionário para ajudar a colocar o corpo no caixão. Para completar, uma funcionária me impediu de passar por dentro do hospital para acessar o necrotério, me obrigando a dar a volta por fora do hospital na noite do último sábado, uma área deserta, de terra batida, ao lado de um matagal.

Por último, não recomendo os serviços da funerária Canaã, também em Manaus, que sequer tem funcionários uniformizados ou vestidos adequadamente, além de terem cometido um erro imperdoável que prefiro não mencionar.

Desconheço o nome da floricultura, mas certamente não é a única a querer lucrar absurdamente na fragilidade de quem está de luto.

 



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